sexta-feira, 20 fevereiro 26

Top 5 semana

Posts Relacionados

Nem tudo é cultura.

Cultura, Estratégia, Método e Sistema: A Vida Complexa das Organizações

1. O mito de que tudo é cultura

É comum ouvir que “tudo é consequência da cultura”. De fato, a cultura pessoal e coletiva é um filtro poderosíssimo. Carrega memórias, hábitos e heurísticas que moldam comportamentos. É ela que dá identidade às organizações e aos povos.

Mas há um limite nesse raciocínio. A cultura é, por natureza, memória do ontem. Ela orienta, mas não define o hoje nem garante o amanhã. Em tempos de hiperconexão digital, onde decisões são tomadas em segundos, reduzir a vida humana ou empresarial apenas à cultura é insuficiente.

2. Cristianismo, Gramsci e a disputa cultural

A história mostra que rupturas surgem para além da cultura herdada. O cristianismo primitivo, por exemplo, não foi simples desdobramento do judaísmo ou do helenismo. Ele representou uma revolução cultural: a dignidade de cada pessoa diante de Deus, a lei do amor que transcende fronteiras, a liberdade espiritual.

Séculos depois, Antonio Gramsci percebeu que a cultura poderia ser manipulada. Quem controla os símbolos controla a política. Sua visão permanece atual, em um tempo em que redes sociais transformam a cultura em campo de batalha narrativa.

3. Estratégia: o desenho do futuro

No mundo empresarial, a estratégia é o projeto de ação futura. É o plano deliberado para organizar recursos e definir caminhos.

  • Cabe à alta direção desenhar estratégias, como generais que definem mapas de guerra.
  • Mas, como todo mapa, a estratégia é vulnerável: pode falhar diante de eventos imprevisíveis ou irracionalidades humanas.

4. Cultura: a memória do passado

Já a cultura é o tecido invisível da organização. São valores, crenças e práticas que orientam escolhas mesmo sem estarem formalizadas.

  • A cultura é sustentada principalmente pela liderança intermediária e vivida no dia a dia.
  • Pode fortalecer uma empresa ou paralisá-la.

É daí que vem a famosa frase de Peter Drucker: “A cultura come a estratégia no café da manhã”. Mas a verdade é que esta frase, sozinha, é incompleta.

5. Método: o campo decisivo

Entre cultura e estratégia está o método. Ele é o caminho prático, repetitivo e adaptável. É o que conecta intenção a ação.

Henry Kissinger foi preciso ao dizer que não adiantava combater o comunismo como ideia: era necessário combater o método de expansão do comunismo — com outro método. A verdadeira disputa se dá menos em estratégias ou culturas, e mais nos métodos de operação.

6. O sistema: organismo vivo

Quando métodos se somam e se articulam em rede, surge o sistema.

  • O sistema não é apenas a soma mecânica de processos.
  • Ele se assemelha a um organismo vivo, tal como no mundo natural e biológico.

No sistema convivem ordem e caos. Ele é tão complexo que muitas vezes não pode ser reduzido a explicações simples. Ele simplesmente é. E está. Invisível quando funciona, devastador quando falha: rupturas, colapsos, até a morte de uma organização.

7. A irracionalidade humana e o caos digital

Mas há ainda algo maior que cultura, estratégia, método e sistema: o ser humano.

  • Com seu livre-arbítrio, que pode negar o passado e desmontar qualquer plano.
  • Com sua irracionalidade, que cresce na era digital, onde algoritmos amplificam impulsos e paixões.
  • Com sua desinteligência, que insiste em repetir erros apesar das memórias culturais e das lições estratégicas.

No ambiente online, a cultura é fragmentada, a estratégia é atropelada e os métodos são corroídos pelo imediatismo.

Conclusão: o todo e suas fragilidades

No fim, podemos dizer:

  • A estratégia aponta destinos.
  • A cultura dá identidade.
  • O método garante a execução.
  • O sistema sustenta a vida organizacional.

Mas nada disso é absoluto. O fator humano, com sua grandeza e sua tragédia, é quem realmente decide o rumo.

O sistema é vital, mas não é imortal. Ele precisa ser cuidado como um organismo vivo, porque quando falha, não há frase bonita de cultura ou estratégia que o salve.

E talvez a lição maior seja esta:
O sistema não é apenas algo que temos. Ele é o que somos. E quando se rompe, é toda a nossa história que colapsa.

Pauta/pesquisa/Jose Orlando Witzler

Artigo anterior
Próximo artigo
José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Popular Articles