Cultura, Estratégia, Método e Sistema: A Vida Complexa das Organizações
1. O mito de que tudo é cultura
É comum ouvir que “tudo é consequência da cultura”. De fato, a cultura pessoal e coletiva é um filtro poderosíssimo. Carrega memórias, hábitos e heurísticas que moldam comportamentos. É ela que dá identidade às organizações e aos povos.
Mas há um limite nesse raciocínio. A cultura é, por natureza, memória do ontem. Ela orienta, mas não define o hoje nem garante o amanhã. Em tempos de hiperconexão digital, onde decisões são tomadas em segundos, reduzir a vida humana ou empresarial apenas à cultura é insuficiente.
2. Cristianismo, Gramsci e a disputa cultural
A história mostra que rupturas surgem para além da cultura herdada. O cristianismo primitivo, por exemplo, não foi simples desdobramento do judaísmo ou do helenismo. Ele representou uma revolução cultural: a dignidade de cada pessoa diante de Deus, a lei do amor que transcende fronteiras, a liberdade espiritual.
Séculos depois, Antonio Gramsci percebeu que a cultura poderia ser manipulada. Quem controla os símbolos controla a política. Sua visão permanece atual, em um tempo em que redes sociais transformam a cultura em campo de batalha narrativa.
3. Estratégia: o desenho do futuro
No mundo empresarial, a estratégia é o projeto de ação futura. É o plano deliberado para organizar recursos e definir caminhos.
- Cabe à alta direção desenhar estratégias, como generais que definem mapas de guerra.
- Mas, como todo mapa, a estratégia é vulnerável: pode falhar diante de eventos imprevisíveis ou irracionalidades humanas.
4. Cultura: a memória do passado
Já a cultura é o tecido invisível da organização. São valores, crenças e práticas que orientam escolhas mesmo sem estarem formalizadas.
- A cultura é sustentada principalmente pela liderança intermediária e vivida no dia a dia.
- Pode fortalecer uma empresa ou paralisá-la.
É daí que vem a famosa frase de Peter Drucker: “A cultura come a estratégia no café da manhã”. Mas a verdade é que esta frase, sozinha, é incompleta.
5. Método: o campo decisivo
Entre cultura e estratégia está o método. Ele é o caminho prático, repetitivo e adaptável. É o que conecta intenção a ação.
Henry Kissinger foi preciso ao dizer que não adiantava combater o comunismo como ideia: era necessário combater o método de expansão do comunismo — com outro método. A verdadeira disputa se dá menos em estratégias ou culturas, e mais nos métodos de operação.
6. O sistema: organismo vivo
Quando métodos se somam e se articulam em rede, surge o sistema.
- O sistema não é apenas a soma mecânica de processos.
- Ele se assemelha a um organismo vivo, tal como no mundo natural e biológico.
No sistema convivem ordem e caos. Ele é tão complexo que muitas vezes não pode ser reduzido a explicações simples. Ele simplesmente é. E está. Invisível quando funciona, devastador quando falha: rupturas, colapsos, até a morte de uma organização.
7. A irracionalidade humana e o caos digital
Mas há ainda algo maior que cultura, estratégia, método e sistema: o ser humano.
- Com seu livre-arbítrio, que pode negar o passado e desmontar qualquer plano.
- Com sua irracionalidade, que cresce na era digital, onde algoritmos amplificam impulsos e paixões.
- Com sua desinteligência, que insiste em repetir erros apesar das memórias culturais e das lições estratégicas.
No ambiente online, a cultura é fragmentada, a estratégia é atropelada e os métodos são corroídos pelo imediatismo.
Conclusão: o todo e suas fragilidades
No fim, podemos dizer:
- A estratégia aponta destinos.
- A cultura dá identidade.
- O método garante a execução.
- O sistema sustenta a vida organizacional.
Mas nada disso é absoluto. O fator humano, com sua grandeza e sua tragédia, é quem realmente decide o rumo.
O sistema é vital, mas não é imortal. Ele precisa ser cuidado como um organismo vivo, porque quando falha, não há frase bonita de cultura ou estratégia que o salve.
E talvez a lição maior seja esta:
O sistema não é apenas algo que temos. Ele é o que somos. E quando se rompe, é toda a nossa história que colapsa.
Pauta/pesquisa/Jose Orlando Witzler

