Entre a Navalha e o Caos
Vivemos um tempo curioso: nunca tivemos tanto acesso à informação, e nunca fomos tão vulneráveis à superficialidade.
A pressa em entender tudo de forma simples fez da sociedade uma consumidora de respostas curtas, mas o mundo não é um lugar de respostas curtas.
Ele é uma rede de relações, e cada fio dessa teia vibra com sentidos que não se deixam reduzir a uma única explicação.
Durante séculos, o pensamento ocidental foi guiado pela Navalha de Ockham, aquela ideia sedutora que dizia: “Não multiplique entidades sem necessidade.” Em outras palavras: quanto mais simples for uma explicação, melhor.
Essa navalha filosófica foi útil cortou o excesso de dogmas, purificou o pensamento científico e nos ensinou a buscar clareza onde antes havia confusão.
Mas a história não parou aí.
Descobrimos que o mundo é feito de paradoxos, instabilidades e sistemas que dançam no limite do caos.
O bater de asas de uma borboleta pode alterar o clima do outro lado do planeta; uma ideia pode mudar uma geração; uma palavra mal colocada pode iniciar uma guerra. De repente, a simplicidade deixou de ser suficiente.
A navalha, se usada demais, começa a ferir a própria realidade.
É nesse ponto que nasce a frase:
“Não multiplique complexidades desnecessárias, mas não simplifique o que é essencialmente complexo.”
Ela é um convite ao equilíbrio.
Um lembrete de que o pensamento deve ser enxuto, mas não raso. Que a clareza não é o mesmo que simplificação. Que entender a vida não é recortá-la em pedaços, mas perceber suas conexões invisíveis.
Em nossa rotina seja num negócio, numa cidade, ou numa alma há momentos em que precisamos usar a navalha: cortar o supérfluo, o barulho, o excesso de teorias, o drama que criamos em torno das coisas.
Mas há também momentos em que precisamos do olhar do caos: aceitar que a vida não cabe em fórmulas, que as relações humanas são sistemas dinâmicos, que a alma é um organismo em permanente reorganização.
Talvez a verdadeira sabedoria esteja em saber quando usar a navalha e quando guardá-la.
Saber que há simples verdades no complexo, e complexas verdades no simples.
No fim, o mundo não exige que escolhamos, entre o corte e o emaranhado.
Ele pede algo mais maduro: a consciência da medida.
Pauta/pesquisa/ Jose Orlando Witzler

