A próxima onda: tecnologia, caos e o retorno à natureza
O livro A próxima onda – Inteligência artificial, poder e o maior dilema do século XXI, de Mustafa Suleyman, é um alerta vigoroso: a humanidade está diante de tecnologias incontíveis, cuja difusão em ondas aceleradas dissolve fronteiras, redistribui poder e ameaça a estabilidade política global. Sua tese é clara — a contenção parece impossível, e o dilema é que tanto seguir quanto recuar nos expõe a riscos catastróficos.
Embora concorde com o diagnóstico central, apresento aqui um contraponto. Se Suleyman enxerga sobretudo o risco político e a incapacidade dos Estados-nação em acompanhar o ritmo da inovação, proponho que o olhar também se volte para os padrões profundos da natureza. Afinal, por mais que a tecnologia tenha avançado, ainda estamos imersos em uma ordem planetária e biológica que jamais será superada totalmente.
O paradoxo do fim das classes tecnológicas
Um dado extraordinário de nossa época é a universalização tecnológica. O que antes era símbolo de status — como o automóvel no início do século XX ou a imprensa no século XV — hoje encontra seu equivalente no smartphone: acessível, onipresente, quase padronizado. O mais rico e o mais miserável carregam no bolso praticamente a mesma ferramenta de comunicação, informação e poder.
Essa equalização representa, em certo sentido, o “fim das classes tecnológicas”. Mas o paradoxo é evidente: ao mesmo tempo em que emancipa bilhões, entrega poder a uma massa despreparada para lidar com as consequências desse acesso ilimitado. A tecnologia, ao nivelar o chão de fábrica da informação, gera uma nova forma de desigualdade: a desigualdade de interpretação, de preparo e de consciência.
Elites em colapso, Estados em desordem
Suleyman alerta que os Estados-nação, já frágeis, podem responder à pressão tecnológica com regimes de vigilância totalitária ou colapsar em formas zumbis, incapazes de garantir serviços básicos. Nesse ambiente, as elites pensantes — políticas, econômicas, intelectuais — se encontram diluídas. Seu monopólio de interpretação do mundo se desfaz, substituído por redes caóticas e descentralizadas. O conceito mesmo de elite se esfarela em um mundo onde a informação é abundante, mas a sabedoria é escassa.
Não se trata apenas de crise política: trata-se de uma crise de sentido. As categorias que organizavam a sociedade moderna — Estado, elite, progresso — estão sendo corroídas por forças que não se deixam conter.
Liderança no caos: da teoria da complexidade aos fractais da vida
É aqui que proponho uma via distinta da de Suleyman. Se não podemos confiar na contenção clássica, precisamos aprender a viver no caos. A teoria da complexidade e a teoria do caos já nos ensinaram que sistemas aparentemente desordenados obedecem a padrões internos, muitas vezes invisíveis à primeira vista. Esses padrões, revelados em formas fractais, mostram que a vida é capaz de se auto-organizar mesmo em condições extremas de instabilidade.
A lição é clara: a liderança do futuro não deve buscar a eliminação do caos, mas o treinamento para habitá-lo. Liderar será aprender a reconhecer padrões frágeis em meio à desordem, a adaptar-se em tempo real, a criar resiliência em vez de previsibilidade.
Propus que os programas de formação de líderes incorporem o estudo dos fenômenos fractais da natureza como metáforas e modelos de gestão de crise. Um rio que se bifurca, uma floresta que se regenera, uma rede neural que se reorganiza após danos — todos são exemplos de como sistemas complexos sobrevivem ao imponderável.
Conclusão: tecnologia como extensão da vida, não como sua superação
Suleyman está correto em afirmar que a próxima onda de tecnologias exige novos mecanismos de governança e contenção. Mas acrescento: nenhuma tecnologia, por mais poderosa que seja, rompe a condição fundamental de que somos seres biológicos em um planeta vivo.
A universalização dos smartphones, a biologia sintética, a inteligência artificial — todas essas ondas são expressões da engenhosidade humana. Mas, em última instância, ainda surfamos nas mesmas marés da natureza que nos moldaram.
Por isso, a saída não está apenas em novas regras, mas em um novo ethos: líderes capazes de aprender com a natureza, de pensar em fractais, de reconhecer que a complexidade não é um obstáculo, mas a própria condição da sobrevivência.
A tecnologia pode nivelar classes e dissolver elites, mas nunca superará totalmente a ordem maior em que estamos imersos. Somos tecnologia, sim, mas, antes de tudo, somos natureza.
By_ Jose Orlando Witzler . (05/09/2025)

