sexta-feira, 20 fevereiro 26

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Bandeira Falsa.

Os símbolos falsos

A história do Brasil guarda um paradoxo profundo e pouco enfrentado: o momento em que uma filosofia importada, trazida por intelectuais bem  posicionados nos círculos político-militares do século XIX, passou a moldar não apenas decisões de governo, mas o imaginário simbólico de uma nação inteira. Não foi um detalhe periférico. Foi uma inflexão silenciosa que ajudou a produzir um desalinhamento entre o Brasil real e o Brasil representado.

O positivismo, concebido na Europa industrial para responder a conflitos próprios daquele contexto, foi transplantado para o Brasil como se fosse neutro e universal. Aqui, porém, ele não brotou da experiência humana cotidiana. Não nasceu da roça, da aldeia, do terreiro, da igreja, da família extensa ou da oralidade popular. Ainda assim, converteu-se em linguagem oficial do Estado, impregnando símbolos, discursos e práticas institucionais.

Símbolos verdadeiros emergem do chão da história vivida. Eles condensam afetos, dores, crenças e esperanças compartilhadas. No Brasil republicano, ocorreu o inverso: os símbolos foram fabricados de cima para baixo, por minorias intelectuais que falavam mais com livros estrangeiros do que com o povo que pretendiam representar.

A bandeira nacional é o exemplo mais eloquente. Ao incorporar um lema filosófico importado e ainda fragmentado o país adotou um enunciado racional, técnico e abstrato para simbolizar uma sociedade essencialmente afetiva, sincrética e relacional. Criou-se um símbolo correto, mas não enraizado; elegante, mas distante.

Esse gesto inaugurou uma ruptura que se estende até hoje: a separação entre o símbolo oficial e o sentimento coletivo.

O Brasil não falhou por falta de ancestralidade. Pelo contrário, ele nasceu do encontro potente embora violento entre povos indígenas, africanos e portugueses. Cada um trouxe consigo cosmologias, ritmos, valores e modos de vida profundamente humanos.

O que falhou foi a capacidade de transformar essa ancestralidade em narrativa nacional legítima. Em vez disso, optou-se por apagá-la ou reduzi-la a folclore, enquanto se importavam sistemas prontos de pensamento e organização social. O positivismo reforçou essa ruptura ao propor uma visão de progresso que exigia distanciamento da tradição e desconfiança do passado.

Assim, rompeu-se o fio cultural que liga gerações. O Brasil moderno nasceu sem reconhecer plenamente seus próprios pais.

Quando símbolos não refletem a experiência real das pessoas, eles deixam de orientar e passam a confundir. O efeito não é apenas político, mas psicológico. Forma-se, no inconsciente coletivo, a sensação persistente de que o país não se reconhece em si mesmo.

Esse desalinhamento ajuda a explicar:

  • a instabilidade cíclica de projetos nacionais,
  • a dependência recorrente de modelos estrangeiros,
  • a impressão difusa de que o Brasil está sempre “por se tornar” algo que nunca chega.

A nação simbólica não conversa com a nação vivida.

Não foi a busca por modernidade o erro central, mas a tentativa de alcançá-la sem tradução cultural. O Brasil tentou se organizar antes de se compreender, planejar antes de se escutar, normatizar antes de se reconhecer.

Símbolos artificiais não geram pertencimento. Eles exigem obediência, mas não inspiram identidade. Criam ordem formal, mas não constroem sentido.

Os símbolos falsos não são mentiras deliberadas; são atalhos históricos que cobram seu preço com o tempo. Enquanto o Brasil não reconciliar razão e afeto, progresso e memória, Estado e povo, continuará vivendo a sensação de incompletude.

Talvez o maior desafio brasileiro não seja econômico ou institucional, mas simbólico: substituir representações importadas por símbolos que brotem da experiência real do seu povo.

Uma nação só se torna inteira quando seus símbolos deixam de ser impostos
e passam a ser reconhecidos como espelho da própria alma coletiva.

Pesquisa/Pauta/Insght/Jose Orlando Witzler

José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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