“As coincidências não são nada.”
A frase pode soar dura à primeira vista, quase como se negasse a poesia que às vezes enxergamos na vida. Mas ela não nega o Mistério; ela apenas alerta contra um equívoco comum: o de transformar ocorrências isoladas em sinalizações de destino.
Há uma infantilidade sutil mas profunda quando uma pessoa vive guiada pela crença de que tudo o que acontece ao redor é mensagem. Quando cada encontro inesperado, cada frase escutada por acaso, cada objeto encontrado na rua, passa a ser interpretado como um código secreto do universo.
Esse tipo de leitura do mundo, apesar de parecer espiritual, na verdade é desespiritualizada.
Porque parte de um pressuposto errado: Deus estaria escondido, se comunicando por enigmas, charadas, recados cifrados e pequenas acrobacias do cotidiano.
Mas não é assim.
O sagrado não brinca de charadas.
Quando alguém fundamenta sua vida em coincidências, o que temos é menos espiritualidade e mais ansiedade vestida de mística.
É uma tentativa desesperada de dar sentido a um mundo interno desorganizado.
Na estatística, chamamos isso de apofenia a tendência humana de ver padrões onde não existem.
Nas probabilidades, chamamos de ruído eventos aleatórios que não possuem relação causal entre si.
Quando a vida é guiada por essas interpretações, ela deixa de ser construída e passa a ser reagida.
E quem reage ao acaso não conduz o próprio barco apenas deriva.
O alerta aqui é amoroso, não acusador:
Não se iluda.
O fluxo da vida não se estabelece por coincidências.
O amadurecimento espiritual passa pelo entendimento de que Deus se manifesta:
- Na consciência desperta,
- Nas escolhas responsáveis,
- Na ética do cotidiano,
- Na serenidade que cresce com o tempo.
Não em sinais aleatórios.
Quando alguém lhe disser que uma oportunidade surgiu “por coincidência”, respire.
Quando alguém narrar encontros improváveis como “destino”, pense.
Quando alguém usar o inesperado como justificativa para uma decisão repentina, tenha cautela.
Não porque o acaso seja maligno, mas porque ele é apenas acaso.
E o acaso pode ser uma armadilha elegante.
A verdadeira espiritualidade é menos espetáculo e mais discernimento.
É menos encantamento infantil e mais lucidez amorosa.
Acorde, irmão.
A sabedoria não está em colecionar sinais, mas em aprender a caminhar sem precisar deles.
Pesquisa/Jose Orlando Witzler

