🥚 O Ovo, a Vida e o Irreversível
A priori, era um ovo.
Completo, definido, fechado em si.
Potência pura. Promessa contida em uma casca frágil.
Tudo nele era previsível: o formato, o peso, a função.
O universo o reconhecia como um ovo. Nada mais, nada menos.
Mas o tempo não se contenta com o que está intacto.
O calor da vida exige ação.
O ovo, então, é lançado à frigideira.
E aqui começa o espetáculo da experiência.
A casca se rompe. A clara se espalha. A gema escorre.
O universo, agora, não tem mais volta.
O que era a priori certeza, forma, conceito
se dissolve num presente imprevisível e irreversível.
É o a posteriori que toma conta:
a experiência viva, caótica, real.
Assim é a vida.
Cada um de nós nasce como esse ovo:
cheio de possibilidades, pleno de potência.
Mas a vida real essa sim só começa na frigideira dos dias,
quando somos colocados diante do calor das escolhas, das dores, dos encontros.
Ninguém sabe que tipo de ovo será:
estrelado, mexido, queimado, parte de um omelete generoso ou de um desastre culinário.
Mas uma coisa é certa:
o ovo nunca mais voltará a ser ovo.
Esse é o dogma que nenhuma filosofia contesta.
O tempo não volta.
A experiência é irreversível.
O caos é parte do processo.
Mesmo com boas intenções, um planejamento a priori e esperanças claras,
o que acontecerá depende de forças que escapam ao próprio ovo e ao universo.
A vida se realiza no campo do imprevisível.
E ainda assim, com alguns ovos quebrados,
mãos dispostas e calor na medida certa,
podemos fazer um bom omelete.
Podemos extrair sentido da irreversibilidade.
“A vida é isso: uma travessia entre o que poderíamos ter sido e o que nos tornamos depois de passar pelo fogo.”
Que saibamos, então, aceitar o espetáculo da transformação,
sem desejar voltar à casca.
Pois o verdadeiro sabor da vida não está no ovo está no que fazemos com ele depois que se quebra.
Zé Ohh!!!

