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Isso é Brasil: o país fantástico das manhas

No Brasil, você não precisa saber tudo — nem ter estudado profundamente — para tocar a vida e levar adiante seus projetos. O que você realmente precisa é aprender as manhas.

Mas afinal, o que são as manhas? São truques? Malandragens? Sabedoria prática? Onde se aprende isso? Como se prepara alguém para reconhecer e usar essa “ferramenta invisível”?

Certa vez, um instalador de equipamentos de telefonia — homem simples, educado e muito eficiente — me disse com naturalidade:

“Eu não sei todas as configurações. O que eu preciso mesmo é ter um amigo que saiba e me ajude na hora. É só isso.”
Ele vive da colaboração, da amizade e da confiança mútua. É assim que funciona. E é aí que começa a lógica das manhas: ninguém sabe tudo, mas todos se ajudam.


Vou tentar ilustrar com uma história real.

Durante uma assembleia no condomínio, discutíamos um assunto trivial: qual máquina cortadora de grama seria mais adequada às necessidades do prédio. Entre análises e opiniões, um dos moradores — sempre espirituoso — soltou uma frase que caiu como definição precisa da nossa realidade:

“No Brasil, tudo tem que ser feito duas vezes. Na primeira, a gente entra de gaiato, levado pela conversa do vendedor e pela propaganda. Na segunda, já com a experiência vivida, faz a escolha certa.”

E foi exatamente o que aconteceu.
Pesquisamos, visitamos lojas, comparamos preços e adquirimos o que parecia ser a melhor máquina em termos de custo-benefício. Entregue, testada, e… reprovada.
Em menos de uma semana, o próprio zelador concluiu:

“Essa máquina não dá. Precisa ser outra, mais potente, com características diferentes.”

Voltamos à loja. O vendedor, cordial, disparou:

“Se o senhor tivesse explicado melhor, eu teria indicado outra máquina, mais adequada. Agora essa já foi usada, perdeu a garantia. Não tem mais o que fazer.”

Pois bem. Fomos à segunda compra — agora munidos das manhas adquiridas na tentativa anterior. E, desta vez, tudo fluiu como deveria.


Mas, afinal, o que são as manhas?

São aprendizados rápidos e práticos, frutos de experiências vividas diretamente em determinado meio. São saberes pessoais, intransferíveis. É como aquela história que pode até ser contada, mas só é compreendida por quem já passou por algo parecido.

Não existe manual que ensine todas as manhas.
Um bom “manhoso” — ou “malandro do bem” — conhece várias, talvez muitas, mas não se propõe a escrever um guia, nem ensinar formalmente. As manhas são transmitidas no olho no olho, na conversa ao pé do ouvido, na sabedoria oral que circula entre confiança, humildade e escuta.

São lições de vida passadas de boca em boca, em momentos oportunos, num “tête-à-tête” entre quem viveu e quem quer aprender.
Relatos reais, contados com um senso de tempo, de ritmo e de pragmatismo — essa é a pedagogia das manhas.

O Brasil é, sem dúvida, o país do povo manhoso.
Um povo bonito, sábio, muitas vezes distante da cultura clássica ou dos grandes autores — mas dotado de um saber prático de alto valor.
Talvez o famoso “jeitinho brasileiro”, tão criticado e ao mesmo tempo tão funcional, seja o filho primogênito da mãe solteira das manhas.


Custo Brasil: a conta das manhas

Não sei se é regra ou lei, mas é fato: funciona.
Se você comprar um equipamento e ele não servir para sua demanda, não se irrite.
Compre outro — agora com a experiência aprendida — e aceite: o custo foi multiplicado por dois. Mas desta vez, com sabedoria.

Planejamento minucioso, leitura de manuais e cobrança de eficiência são práticas que funcionam… na Alemanha. Lá, tudo é projetado para funcionar de primeira. Aqui, as engrenagens sociais giram em outro compasso — o das manhas.

Por isso, respire fundo. Relaxe.
Pagar duas vezes por algo no Brasil é apenas mais um dos componentes do chamado “Custo Brasil” — que, no fim das contas, ainda pode sair mais barato que o “Custo Alemanha”, dependendo de como se vê.


E talvez seja exatamente por isso que tantas pessoas simples, no Brasil inteiro, têm tanto prazer em compartilhar suas manhas nas redes sociais — seja em vídeos curtos, tutoriais caseiros ou relatos despretensiosos.

Há uma alegria genuína em transmitir aquilo que se aprendeu na marra.
Faz parte da nossa natureza. Talvez tenha sido essa prática — a de compartilhar saberes vividos sem esperar nada em troca — que nos trouxe até aqui como espécie.
Feliz de quem escuta… e aplica.

Por:-Jose Olavo Pimenta ( Botucatu 20/06/2025)

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José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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