Os Roosevelt: uma família, dois ramos, três personagens que marcaram o século XX
Quando se fala em Roosevelt, muitas pessoas imaginam uma única linhagem familiar conduzindo os destinos dos Estados Unidos. A realidade é um pouco mais interessante.
Os Roosevelt eram uma antiga família de origem holandesa estabelecida em Nova York desde o século XVII. Com o passar das gerações, a família dividiu-se em dois grandes ramos: o ramo de Oyster Bay e o ramo de Hyde Park.
Do ramo de Oyster Bay surgiria Theodore Roosevelt. Do ramo de Hyde Park surgiria Franklin D. Roosevelt.
Eles não eram pai e filho. Eram parentes distantes, aproximadamente primos de quinto grau. Ainda assim, suas trajetórias acabariam se cruzando de maneira decisiva na história americana.
Theodore Roosevelt nasceu em 1858 e tornou-se uma figura lendária. Soldado, explorador, caçador, escritor, reformador político e presidente, foi o homem que ajudou a conduzir os Estados Unidos da condição de potência continental para a condição de potência mundial. Sob sua liderança, os americanos fortaleceram sua marinha, ampliaram sua presença internacional, iniciaram a construção do Canal do Panamá e estabeleceram uma política externa baseada na projeção de força e influência. Ao mesmo tempo, combateu monopólios econômicos e tornou-se um dos maiores defensores da preservação ambiental da história do país.
Poucos sabem que, após deixar a presidência, Theodore realizou uma das mais extraordinárias viagens de sua vida no Brasil. Em companhia do Marechal Cândido Rondon, percorreu regiões remotas da Amazônia na famosa Expedição Roosevelt-Rondon. Navegou o então chamado Rio da Dúvida, enfrentou doenças, corredeiras e a dureza da floresta tropical. Conheceu um Brasil que poucos estrangeiros conheceram antes ou depois dele. A experiência foi tão marcante que o rio passou a chamar-se Rio Roosevelt, eternizando o encontro entre dois homens que ajudaram a construir seus respectivos países.
Enquanto Theodore brilhava na cena nacional, um jovem parente observava atentamente sua ascensão. Esse jovem era Franklin Roosevelt.
Franklin admirava profundamente Theodore. Via nele um modelo de liderança e serviço público. Décadas depois, seguiria seus passos na política, mas enfrentaria desafios muito diferentes.
A ligação entre os dois ramos da família tornou-se ainda mais próxima quando Franklin se casou com Eleanor Roosevelt, sobrinha de Theodore Roosevelt.
Eleanor teve uma infância difícil. Órfã ainda jovem, encontrou sua formação intelectual sob a orientação da educadora francesa Marie Souvestre, que lhe ensinou a pensar de forma independente, observar o mundo e desenvolver sensibilidade para as questões humanas.
Essas influências moldariam profundamente sua atuação futura.
Em 1933, Franklin Roosevelt assumiu a presidência em meio à maior crise econômica da história americana, a Grande Depressão. Seu programa de recuperação, conhecido como New Deal, redefiniu o papel do governo na economia e ajudou a reconstruir a confiança nacional.
Mais tarde, seria também o líder americano durante a maior parte da Segunda Guerra Mundial.
Foi durante esse período que Franklin tomou uma das decisões mais importantes e controversas do século XX. Em 1942, autorizou a criação do Projeto Manhattan, um gigantesco programa científico e militar destinado a desenvolver a energia nuclear para fins bélicos antes que a Alemanha nazista o fizesse. Reunindo alguns dos maiores cientistas do mundo, o projeto culminaria na construção das primeiras bombas atômicas da história. Embora Franklin não tenha vivido para testemunhar seu emprego em Hiroshima e Nagasaki, sua decisão alterou profundamente a geopolítica mundial e inaugurou a era nuclear.
Nos últimos anos de sua vida, Franklin também passou a defender a criação de uma organização internacional que pudesse evitar novas guerras globais. Foi um dos principais idealizadores da futura Organização das Nações Unidas.
Existe uma notável dualidade em seu legado. O mesmo homem que autorizou o maior projeto militar-científico de seu tempo também trabalhou para construir uma instituição internacional voltada à preservação da paz. Como muitos líderes em tempos de guerra, Franklin viveu o paradoxo de enfrentar a violência do presente enquanto buscava construir mecanismos para evitar conflitos futuros.
Porém, em abril de 1945, poucas semanas antes da assinatura oficial da Carta das Nações Unidas, Franklin faleceu.
Muitos imaginavam que a história dos Roosevelt terminaria ali.
Mas Eleanor estava apenas começando sua missão internacional.
Convidada pelo presidente Harry S. Truman para representar os Estados Unidos na ONU, ela assumiu um papel que poucos poderiam prever. Tornou-se presidente da comissão responsável pela elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Foi Eleanor quem conduziu negociações entre representantes de culturas, religiões e sistemas políticos distintos, ajudando a formular um dos documentos mais influentes da história moderna.
Por isso, muitos passaram a chamá-la de “Primeira-Dama do Mundo”.
Ao observar essa trajetória, percebe-se uma curiosa sequência histórica.
Theodore Roosevelt ajudou a projetar os Estados Unidos para o mundo.
Franklin Roosevelt ajudou a organizar a ordem mundial do pós-guerra e inaugurou, ainda que indiretamente, a era nuclear.
Eleanor Roosevelt ajudou a fornecer à nova ordem internacional um fundamento moral baseado na dignidade humana.
Não eram pai, filho e esposa. Eram parentes de ramos diferentes de uma mesma família. Mas, ao longo de pouco mais de meio século, contribuíram decisivamente para moldar os Estados Unidos e influenciar instituições, tecnologias e ideias que continuam impactando o mundo até hoje.
Poucas famílias deixaram uma marca tão profunda na história política do século XX quanto os Roosevelt. Theodore deu aos Estados Unidos confiança e projeção. Franklin deu-lhes direção em tempos de crise e guerra. Eleanor ajudou a lembrar que poder sem humanidade dificilmente constrói uma paz duradoura.

