A Força que Desce
Todo menino, quando cresce, quer ser Homem.
Todo homem quer ser Rei.
Todo Rei quer ser Deus.
Somente Deus quis ser menino.
O Menino Jesus.
Essa frase carrega uma inversão radical da lógica humana.
O homem sempre tenta subir. Crescer, dominar, controlar, ampliar seu poder. A história da humanidade é marcada por esse movimento ascendente: da fragilidade à força, da obediência ao comando, do limite à pretensão de absoluto.
Deus, ao contrário, faz o caminho inverso.
O nascimento de Jesus não é uma tentativa de transformar o homem em Deus. É algo muito mais profundo e desconcertante: é a decisão de humanizar Deus.
O escândalo da fragilidade
O cristianismo não começa com um trono, um exército ou um decreto. Começa com um bebê. Frágil. Dependente. Silencioso.
Deus entra na história não como poder, mas como vulnerabilidade. Não como imposição, mas como confiança. Não como espetáculo, mas como presença.
Isso muda tudo.
O nascimento do Menino Jesus revela algo essencial:
Deus acredita no mundo.
A encarnação é um ato de fé de Deus na humanidade. Ao aceitar nascer como bebê, Deus aceita o risco do amor. O risco da rejeição. O risco da dor. O risco da morte.
Isso não é fraqueza.
É amor total.
A fase humana: Deus aprende a ser homem
Na sua fase humana, Jesus não vem abolir a condição humana, mas assumi-la integralmente. Trabalha, cansa, sofre, sente medo, ama, chora, se indigna.
Não há atalhos.
Não há privilégios divinos visíveis.
A encarnação não suspende a humanidade — ela a consagra.
Aqui se consolida algo decisivo: ser humano não é um erro a ser corrigido, mas uma condição a ser vivida plenamente. Deus não salva o homem apesar da carne, mas através dela.
A ressurreição: a confirmação da criação
A fase ressuscitada não anula a fase humana. Ela a confirma.
A ressurreição não é fuga do mundo. É o selo final de que a criação valeu a pena. Que a matéria, a história, o corpo e a consciência não são descartáveis.
O Cristo ressuscitado não abandona o humano ele o eleva.
Nesse sentido, a ressurreição é a consolidação da criação humana de Deus. O projeto não falhou. O amor não foi em vão. A vida não termina na fragmentação.
O que começa como menino termina como presença universal.
Deus não quer ser Rei quer ser Pai
O homem quer ser rei. Quer controlar, mandar, impor. Deus recusa essa lógica. Ele prefere o caminho do pai, do filho, do cuidado.
Somente Deus quer ser menino porque somente o amor absoluto pode se permitir descer sem medo.
O nascimento de Jesus esclarece toda a criação:
o sentido último do universo não é o poder, mas o amor.
não é a força, mas a comunhão.
não é a dominação, mas a confiança.
Conclusão: a revelação que permanece
O Menino Jesus permanece como um sinal permanente contra todas as idolatrias do poder. Ele lembra que Deus não se manifesta na grandeza que oprime, mas na pequenez que salva.
A criação só se completa quando o amor é vivido até o fim.
E Deus, ao escolher nascer bebê, mostrou que acredita nisso mais do que nós.

