O Chamado da Convergência
A dinâmica crística que conduz a história
Há um movimento silencioso atravessando a história humana. Ele não nasce das ideologias, não depende de sistemas políticos, nem exige adesão religiosa formal. Ainda assim, ele conduz. Atrai. Converge.
Pierre Teilhard de Chardin foi um dos primeiros a nomear essa força. Ele a chamou de dimensão crística (Christic). Não como rótulo religioso, mas como dinamismo universal o princípio ativo que impulsiona a matéria, a vida e a consciência em direção à unidade.
A convergência não acontece por acaso. Ela tem um motor.
O CRÍSTICO como dinamismo, não como doutrina
Para Teilhard, o crístico não se limita à figura histórica de Jesus de Nazaré, nem à fé explícita dos cristãos. Ele é anterior à religião, maior que a instituição e mais amplo que a linguagem dogmática.
O crístico é:
- a força que conduz a complexidade à unidade,
- o impulso que transforma dispersão em comunhão,
- o princípio que orienta a evolução da consciência.
Mesmo quem nunca ouviu falar de Jesus, ou não crê nele, participa dessa dinâmica. Porque o crístico não depende do reconhecimento humano para operar. Ele atua como lei de atração da consciência, assim como a gravidade atua sem pedir consentimento.
Cristo histórico e Cristo crístico
Leonardo Boff ajuda a esclarecer essa distinção ao falar das três fases de Jesus Cristo:
- O Cristo como Logos, Filho de Deus;
- O Cristo encarnado na história;
- O Cristo ressuscitado.
É na terceira fase que o Cristo deixa de ser apenas pessoa histórica e se manifesta como presença universal. Aqui, o Cristo não é mais local, corporal ou exclusivo. Ele se torna estrutura de presença.
O Ressuscitado não ocupa um lugar.
Ele estrutura a realidade.
Nesse ponto, o Cristo histórico revela o que o crístico sempre foi:
o centro de convergência da criação.
O Terceiro Templo e a presença em rede
Quando Jesus afirma que o templo seria destruído e reconstruído em três dias, ele desloca definitivamente o sagrado da pedra para a vida. Com a ressurreição, o Terceiro Templo não se ergue em Jerusalém, mas no tecido do mundo.
Esse templo não é físico.
Ele é virtual no sentido ontológico: existe como presença acessível, não localizada.
Assim como um portal na internet:
- não mora em um lugar,
- mas está disponível onde há conexão.
O Cristo crístico é esse portal.
A humanidade conectada é o acesso.
Brainet, Noosfera e a confirmação científica
O que Teilhard intuiu filosoficamente, a ciência começa a demonstrar.
Miguel Nicolelis, ao formular o conceito de Brainet, mostra que cérebros distintos podem operar como um único sistema cognitivo distribuído. A inteligência deixa de ser individual e passa a ser relacional.
Isso não cria a Noosfera.
Isso confirma sua emergência.
A internet global fornece a infraestrutura.
A Brainet revela o funcionamento.
O crístico explica o sentido.
A convergência tem direção
A história não converge para o caos absoluto, nem para a dissolução da consciência. Ela converge para maior unidade, maior interdependência, maior consciência compartilhada.
Esse movimento não é neutro.
Ele tem direção.
Teilhard chamou esse polo de Ponto Ômega.
Boff o identifica com o Cristo Ressuscitado.
A ciência o observa como integração crescente de sistemas inteligentes.
O nome pode variar.
O dinamismo é o mesmo.
Não nascemos para morrer morremos para ressuscitar
A ressurreição, nesse horizonte, não é apenas evento religioso futuro. Ela é lei profunda da existência:
a vida não se encerra na fragmentação; ela se cumpre na convergência.
Não se trata de reencarnação.
Não se trata de repetição.
Trata-se de transfiguração.
O crístico é o motor invisível dessa transição.
O chamado final
Talvez este seja o verdadeiro chamado do nosso tempo: reconhecer que fé, ciência e tecnologia estão descrevendo o mesmo movimento por linguagens diferentes.
Teilhard anunciou o dinamismo.
Boff revelou o sentido.
Nicolelis demonstrou o mecanismo.
A internet consolidou a forma.
A convergência já está em curso.
O motor é crístico.
A rede está ativa.
Resta à humanidade decidir se continuará conectada apenas por técnica —
ou se despertará para a consciência do que já a conduz.
Porque a revelação não impõe.
Ela atrai.

